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“Não se pode esquecer, ao apreciar-se qualquer obra de arte, que antes dela existiu o artista”. Essa é a frase de introdução do livro sobre a vida e obra do lapeano Fernando Calderari, 74 anos, publicado em novembro de 2004, por Sergio Kirdziej. Artista plástico de renome internacional, Calderari se apresenta em seu ateliê, no Bigorrilho, em Curitiba, com uma simplicidade e educação ímpares. Na decoração, cinzeiro na bancada ganhando as cinzas do Marlboro Light, antigos aparelhos de rádio espalhados pelas prateleiras – alguns deles presenteados por amigos estrangeiros –, telas prontas e outras por fazer e tinta, muita tinta. Até mesmo manchando as paredes e o estofado das cadeiras.

“Sente-se ali. Fique à vontade”, ele diz, enquanto procura o isqueiro. Fico imaginando se teria alguém mais apropriado para dar o pontapé inicial nesta coluna. Com a fala mansa, voz grave e rouca, o artista falou da saudade que sente das pessoas. “Agora, eu vou pra Lapa e conheço pouca gente. As pessoas mudaram, o movimento aumentou. A última vez que fui deve fazer um ano e pouco e só vi o Sergio Leoni na Padaria Zeni. Ainda bem que pelo menos a cidade não muda. Ela continua igual, com seu centro histórico, a leveza, e acho que deve continuar assim. Já chega a frieza da cidade grande. A Lapa não tem disso”, orgulha-se.

Fernando Calderari viveu a infância na Legendária, até os seus 14 anos. Mudou-se para Ponta Grossa e firmou raízes em Curitiba, quando passou no vestibular da Escola de Música e Belas Artes do Paraná — EMBAP. Mas engana-se quem pensa que foi nesse momento que sua vida mudou. Não, a faculdade apenas sacramentou um dom que o levou mundo afora. Na verdade, a história do artista começou a ser escrita da janela de sua casa, quando avistou um homem montando um cavalete e abrindo um estojo de tinta na Praça General Carneiro, para pintar a Igreja Matriz.

Fernando vivia onde hoje fica a Farmácia Vitória e o momento lhe traz boas recordações: “Prestei atenção na cena imaginando que ele era um retratista. Mas não, ele ia pintar a famosa igreja do Cerco da Lapa. Aquilo mexeu comigo. Cheguei a brincar com a escova de dente e pasta misturando mercúrio para ficar colorido, mas passou. Anos depois, em Ponta Grossa, outro sujeito com seus equipamentos de pintura entrou na Igreja de Santa Cecília. Eu entrei atrás”.

O mundo das artes agradece até hoje tal impulso de Calderari e a coragem dele em optar por um curso diferente da engenharia ou medicina, mais comuns para a época.

Carreira

Paralelamente às artes plásticas, ele atuou como professor nas disciplinas de pintura, desenho, teoria da conservação e restauração da pintura. Foi professor da PUC do Paraná, no curso de desenho industrial, e também formou-se em Didática Especial em Desenho, pela Faculdade Católica de Filosofia.

Expôs individualmente pela 1ª vez em 1963, na Galeria Gead, no Rio de Janeiro, e participou do Ateliê de Gravura do Museu de Arte Moderna em 1965. Foi aluno de Edith Behring e Roberto De Lamonica e, na década de 70, participou do Congresso da Associação Internacional de Artes Plásticas em Varna (Bulgária).

Possui obras em vários acervos Oficiais e particulares no Brasil e no exterior.

Foto: Alex Calderari